O que eu aprendi nos meus primeiros intercâmbios


Blog / quarta-feira, junho 14th, 2017

Já morei sozinha em dois países, Estados Unidos e Alemanha. Esses dois intercâmbios se tornaram essenciais para o meu autodesenvolvimento. Hoje eu percebo que foram resultados claros de minhas inquietações.

Criada entre as paredes da escola e as paredes do meu quarto no centro-oeste do Brasil, por muito tempo tudo o que vi foram telas. Telas de computadores, televisões e salas de cinema repletas de produtos da indústria do entretenimento norte-americano.

Com um tempo livre dedicado a aprender inglês e a frequentar aulas de dança e teatro (para perder a timidez), eu naturalmente alimentei o desejo de conhecer o que mais esse mundo poderia me oferecer.

Eu então me tornei uma jovem adulta pronta para partir.

Com quase nenhum sentimento de pertença ao meu estado geográfico, partir no início era a única solução para que a felicidade plena pudesse ser atingida.

A ideia que eu martelava na minha cabeça era terminar a faculdade o mais rápido possível e partir para uma primeira pequena experiência fora. Claro, logo que juntasse um pouco de dinheiro do meu futuro “primeiro emprego”.

É engraçado como, quando você é adolescente, todos os seus próximos passos parecem tão claros e óbvios. Mas isso não aconteceu.

  • Os Estados Unidos

Ainda no meu segundo ano de faculdade, apareceu a primeira oportunidade de sair. Foi o Ciência sem Fronteiras, que provavelmente você conhece. O programa não era necessariamente voltado para área de Humanas, mas eu quis tentar, tentei e deu certo.

Quase ano depois de me inscrever e passar por todas as burocracias e incertezas dessa iniciativa, eu me mudei para a Flórida. E foi durante dois semestres que eu pude atender a orgulhosa University of Florida.

Depois dos mais sensacionais meses da minha vida dentro da minha primeira real experiência de vida, eu parti para o que seria uma experiência ainda mais interessante. Passei um verão inteiro na maior cidade do mundo: Nova York.

Morei em um dormitório da NYU e trabalhei como estagiária em edição de vídeo em uma pequena companhia de teatro e museu no Brooklyn.

A volta para o Brasil

Voltar para o Brasil depois de treze meses vivendo um dos meus maiores sonhos juvenis foi um baque enorme. Tive o que alguns chamem de “choque cultural reverno”, Me reajustar a minha vida antiga se tornou um desafio muito difícil. Não tive vontade de fazer nada por meses. Mas fiz.

Voltei a frequentar minha faculdade no Brasil, voltei a fazer alguns cursos importantes para mim, como de dança e teatro. Mas a verdade é que não era a mesma coisa. Eu queria ter outra experiência semelhante.

  • A Alemanha

Um semestre depois de voltar dos EUA, resolvi me candidatar para uma vaga de estágio em uma empresa na Alemanha. Vi a chamada no site, construí um currículo aos moldes alemães, escrevi uma cover letter e enviei por email.

Depois de emails para lá e para cá, eu fiz uma entrevista por Skype com os responsáveis pelo recrutamento.

Nesse entrevista, eu me surpreendi muito comigo mesmo. A minha desenvoltura, o meu ânimo e minhas habilidades de falar com propriedade sobre os meus objetivos, sonhos e técnicas de trabalho, foram essenciais para que eu fosse chamada para estagiar lá.

Resolvi as papeladas, comprei a passagem de avião de ida e volta com a ajuda do meu irmão e fui para a Alemanha sem saber falar uma palavra de alemão.

Morei em Hamburg por três meses trabalhei por oito horas num escritório de verdade (foi minha primeira vez no mundo corporativo), tinhas metas diárias e semanais, tinha reuniões e happy hours.

Essa foi a experiência de trabalho que eu precisava antes de me formar, que foi essencial para eu entender como é o cotidiano de uma empresa e o que me esperava depois da graduação.

Mais do que isso, foram nesses três meses na Alemanha que eu percebi que a vida, a minha vida, não tinha limites e que eu precisava ouvir e sentir as minhas inquietações para agir e me desenvolver.

Vivendo no limite e descobertas

Na Europa, eu vivia com salário de estagiária. Tal como no Brasil, salário de estagiário é bem pouco. Só dava para pagar o aluguel num quarto sublocado e comprar comida, às vezes comer fora… 

Dentro a minha limitação financeira e de tempo (lembra que eu trabalhava 8 horas por dia?), eu fiz um esforço para visitar as principais cidades europeias, como Berlim, Londres, Amsterdã e Paris.

Como o dinheiro era curto, eu me aventurei em sofás de estranhos através do Couchsurfing e em caronas mais baratas pelo blablacar.

Foram desafios até considerados “imprudentes” por alguns. Mas foi dentro dessa limitação que eu provei para mim mesma mais uma vez que estar num outro país completamente sozinha significa crescer e amadurecer. Então eu precisava disso.

Superando medos e inseguranças

Jovens sempre me assustaram. Passei por minha adolescência amedrontada desse grupo de pessoas que parece ter tanta certeza de como se divertir e é tão seguro de si. Jovens.

Mesmo sendo e me sentindo jovem, tudo o que eu queria era não parecer tão boba como eles. Sempre quis ser levada a sério, e isso me impediu de me aproximar de verdade das pessoas enquanto eu crescia.

No intercâmbio, tanto para os Estados Unidos quanto para a Alemanha, eu me permiti mais. E essa permissão abriu caminho para eu conhecer meu lado menos sério e mais jovem e relaxado.

Me relacionei mais verdadeiramente com as pessoas a minha volta, ao mesmo tempo em que entendia melhor quem eu era.

Relacionar-se não é só sobre os outros. Mas é sobre nós mesmos. Descobrimos quem somos e como agimos.

Descobri que fazer amigos era uma forma de superar meus medos e inseguranças.

Sem ter noção do quanto aquilo me faria bem, eu viajei pelas principais cidades dos EUA e Europa, acompanhada ou sozinha (mas pronta para conhecer pessoas).

Desde fazer uma road trip de San Diego a São Francisco com um grupo de brasileiros e alemães, dormir por uma semana em um hotel barato a poucos metros da strip de Las Vegas até passar cinco dias conversando conversando e bebendo com estranhos em um hostel de Chigago.

Desde dormir em sofás de estranhos de 30 e poucos anos em Londres e Amsterdã, até passar cinco dias inteiros no inverno de Nova York sem mal trocar uma palavra com alguém, além de um japonês mal-humorado que me acompanhou por alguns dias…

Eu aprendi a me colocar em diversas situações e confiar nas pessoas a minha volta. Essas experiências me fizeram ser grata pelas pessoas e acreditar em um mundo mais honesto.

Fazer sozinha: solidão e liberdade

Fazer as coisas sozinha se tornou real e foi bastante libertador. Descobri a beleza de estar sozinha.

A sensação de liberdade veio também acompanhada com o medo e às vezes a solidão. Essas coisas todas tem um gosto muito peculia. São boas e intensas. Acho que por isso deixam uma vontade única de repetição.

Agora eu sinto ocasional medo, tanto de gente jovem, quanto do futuro e do presente. Mas eu estou na fase de finalmente sentir que eu pertenço a minha própria pele, não importa onde eu esteja. Viajar para mim significa experimentar e aprender.

O medo e a insegurança, as inquietações e incertas foram combustível para o meu autodesenvolvimento. Foram elas que me ajudaram a me colocar no mundo.

E é por isso que eu compartilhei isso aqui. Eu quero que mais pessoas saibam que está tudo bem em se sentir inquieto. Os 20 e poucos e os 30 e poucos e os 40 e poucos são para isso mesmo. Abrace o medo e a inquietação e vá lá dar o primeiro passo.

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