Como você vende sua atenção?


Blog / segunda-feira, abril 29th, 2019

Ontem estava lendo o “Onlife Manifesto”, um texto manifesto que fala, entre outras coisas, dos impactos da ‘era computacional’ em nossas vidas privadas e, principalmente, públicas, e da necessidade de melhores políticas para regulamentar o uso extensivo da Internet e de suas tecnologias em nossas vidas.

Um fato curioso lá pelo fim do texto foi a menção da ‘atenção’. Os autores citam algo que acho que todo mundo já sabe, mas poucos pararam para pensar: atenção é uma commodity, ou uma mercadoria. Como commodity, pode ser trocada e vendida. Nossa atenção é algo que tem valor no mercado.

Não se engane, a Internet não é a primeira forma em que atenção se tornou commodity. A televisão, o rádio, os jornais impressos, o cinema. Todas essas formas de mídia transformam a nossa atenção em mercadoria para serem vendidas para empresas interessadas em fazer publicidade.

Quanto mais leitores compram e lêem um jornal ou uma revista, por exemplo, mais eles podem vender “mais caro” por um espaço para publicidade. A mesma coisa ocorre no intervalo do final da Copa do Mundo. Toda a atenção do mundo está voltada para a tela, e por isso, colocar um comercial nesse intervalo não é, nem um pouco, barato. As empresas querem aproveitar toda essa atenção para fazer com que mais e mais pessoas conheçam seus produtos e soluções.

A diferença é que, com a Internet e suas tecnologias, ficou mais fácil comercializar nossa atenção. Muito do que fazemos, de trabalho a diversão, de estudo à relacionamentos, é altamente usado com a ou através da Internet.

Nossa atenção é meramente um instrumento, em que é desconsiderado as dimensões sociais e políticas da capacidade de prestar atenção.

“A habilidade e o direito de focar nossa própria atenção é uma condição crítica e necessária para autonomia, responsabilidade, reflexividade, pluralidade, presença, e senso de significado” (2014, p.13, tradução minha).

Prestar atenção é um ato muito importante, sempre. Por isso, é também tão importante que tenhamos ciência do papel da atenção hoje nas ferramentas e plataformas que amamos, e que usamos como se fossem dádivas. Um pouquinho de pensamento crítico sobre elas faz total diferença na maneira como você se engaja com ela, e também da forma como você pode viver sua vida.

Os autores, lá para o final, sugerem que a proteção da nossa atenção deveria ser um direito fundamental, tal como é nossa privacidade. Achei essa perspectiva interessante porque coloca a atenção como objetivo que precisa ser conhecido e debatido. Você já parou para pensar na importância da atenção antes?

Atenção e minimalismo

Mas o que atenção tem a ver com minimalismo? O minimalismo, segundo os Minimalistas, é “uma ferramenta para liberar você dos excessos da vida em favor de focar no que é importante – para que você encontre felicidade, satisfação e liberdade”.

Um importante fator do minimalismo é o foco. Em um mundo de excesso e abundância, de coisas e de informação, e em que nossa atenção é extremamente disputada, a habilidade de focar é importante para nossa liberdade.

Não estar preso às amarras desse sistema de commodity de atenção nos leva a uma vida em que nos tornamos donos da nossa atenção, e por isso, donos da nossa vida.

Se você flerta com o minimalismo, e se considera uma pessoa que acredita que ser consciência sobre seu consumo, tenha consciência também sobre sua atenção. As duas coisas estão conectadas.