Como me tornei fluente em inglês ainda na adolescência


Blog / quinta-feira, junho 8th, 2017

Com 10 ou 11 anos, eu resolvi que queria aprender inglês. E o motivo era bem “fútil”: eu queria entender as músicas das minhas bandas preferidas, ver entrevistas com eles no YouTube, entender meus filmes preferidos, ouvir os atores etc.

Eu queria entender as coisas sem precisar de dublagem ou legenda. Isso sempre foi muito claro para mim.

Além disso, eu tinha na minha cabeça que eu iria conhecer o resto do mundo um dia, e por isso, ter fluência em inglês seria essencial.

Aulas de inglês eu só tinha na escola. Na verdade, eu só fui fazer um “curso” de inglês mesmo em 2010, na Cultura Inglesa. Eu tinha 17 anos.

Fiquei menos de um ano e depois só fui fazer inglês no Centro de Línguas da faculdade, em 2011, passando apenas um ano e meio para me “formar” no inglês de lá. Depois, nunca mais.

Então como eu, classe média, pais que não sabiam inglês, sem nunca ter viajado para fora, consegui fluência já na adolescência? E como essa fluência permitiu que eu aproveitasse algumas oportunidades nesta vida?

Eu não sou o Mairo Vergara e nem professora de inglês, mas eu posso compartilhar algumas dicas de acordo com minhas próprias experiências.

Aprendendo pela maravilhosa internet

O inglês na minha escola era bem fraco, mas dava para entender alguns aspectos gramaticais e aumentar um pouco o vocabulário. Então, era a minha matéria preferida. Mas foi a internet o divisor de águas para eu realmente ter contato com a língua.

Como uma legítima fan girl da época de ouro do emo (sim, eu era dessas, I’m not okay, I’m not o-fuckin-kay, eu passei boa parte da minha pré-adolescência em sites como MySpace, Orkut, MSN e YouTube, compartilhando tudo com outros fãs das bandas legais.

Eu assistia a muitos vídeos, ouvia muitas músicas e via muitos filmes. O MySpace teve um papel interessante no meu aprendizado porque era uma rede social que os brasileiros não usavam muito. Então, era tudo em inglês por lá, e eu podia trocar ideias com pessoas de fora também.

Outra coisa interessante daquela época foi o LiveMocha. Eu usava esse site demais para aprimorar meu inglês porque era bem completo e gratuito. O site nem existe mais!

O inglês fazia parte das formas como eu me divertia online. Mais ou menos como os gamers de hoje em dia aprendem inglês, não é?

Offline: Música, filmes e tradução

Lembra quando a gente ouvia música e assistia filmes sem precisar estar conectado a internet? Sim, eu sou da época do CD e DVD e diskman! 

Apesar de eu usar a internet na época, eu dividia o mesmo computador com meu irmão e meu tio. Então, cada pessoa tinha apenas algumas horas para ficar na internet. Tempos de escassez! Eu não podia depender de aprender somente online.

Como uma boa fan girl, eu tinha CDs originais, que vinham com as letras na capa. Comecei a ter o hábito de traduzir as letras de músicas dos meus CDs, buscando cada palavra que eu não sabia no dicionário.

Eu passava a tarde ouvindo música, lendo ao mesmo tempo na capa e depois ia traduzir minhas músicas preferidas. Eu me lembro até hoje da dificuldade que eu tive de traduzir a frase “I’d do anything”. Esse “d” aí e o anything são palavras muito estranhas que o dicionário não sabe explicar bem.

Também gostava de ouvir as músicas e escrever o que eu ouvia.

Se não soubesse, escutava de novo e de novo, até tentar escrever a maioria das palavras da música.

Quando eu não tivesse entendido mesmo, eu deixava um espaço em branco. Pode parecer uma coisa bem chata de se fazer, mas para mim era divertido. Será que eu sou nerd assim?

Eu me lembro também de colocar o meu DVD de Edward Mãos de Tesoura na opção de “comentários do diretor”. Enquanto eu assistia ao filme, o diretor Tim Burton falava. Eu não me lembro que idade eu tinha ali, mas eu passei a tarde inteira escrevendo o que ele falava. E se eu não tivesse entendido, eu deixava um espaço em branco na página também.

Minha maior felicidade era perceber que eu praticamente conseguia entender tudo o que ele falava.

Praticando por um diário

Quando eu tinha 13 anos, minha mãe me deu um diário e disse que todas as garotinhas tinham um diário. (Quê???). Daí eu escrevi esse fato no meu diário, só que em inglês. Eu aproveitei o fato de eu ter um diário para praticar o meu inglês escrito e principalmente pensar em inglês.

A vantagem é que eu poderia falar quem era os meus crushes sem correr o risco de alguém ler o meu diário e entender alguma coisa. Uhum, esse era o tipo de vantagem que eu considerava. 

Mas hoje acredito que começar a praticar a escrita diária em inglês foi essencial para que eu desenvolvesse fluência. Afinal, quando você só lê ou ouve, você pode até entender, mas é praticando (escrevendo e falando), que a coisa realmente se desenvolve exponencialmente.

E foi o que eu percebi. A partir do momento em que o inglês se tornava uma forma de expressão para as páginas do diário, a fluência foi conseguida naturalmente.

E sim, tinha erro de gramática. Eu até escrevi que esperava voltar ao diário depois de muitos anos e perceber o quanto de inglês eu aprendi desde então ao ver meus erros de gramática. 

Minha leitura de cabeceira: o dicionário

O dicionário era tipo o meu livro mais acessado de todos, o meu guia e guru do inglês quando eu era adolescente.

Se eu não soubesse uma palavra que queria usar no meu diário ou traduções, eu ia lá no dicionário e encontrava o significado em português da palavra. Mas nem sempre eu achava.. Ainda bem pela internet! 

Esses dias eu estava olhando no meu surrado dicionário escolar Michaelis Inglês – Português. Na primeira página está escrito:

I hate this dictionary ‘cos it doesn’t have any word I’m looking for! – Dec 16th 2008.

Eu tinha 15 anos e estava triste porque o dicionário não era assim tão completo. Atenção especial ao meu “‘cos” maneiro, que é um jeito informal e descontraído do “because” – “cause” – “cuz” “cos”… Meu inglês era das ruas mesmo… Das ruas da internet! =P

Eu fui folhear as páginas do dicionário e me lembrei de outro hábito que eu tinha: marcar as palavras que eu procurava com uma pequena setinha. Em cada página do dicionário inglês – português (e não português-inglês), tem pelo menos 2 setinhas, às vezes 6 ou 7.. Em mais de 300 páginas de dicionário, eu devo ter pesquisado pelo menos 600 palavras em inglês.

É incrível como eu tive contato com tantas palavras assim e eu não tinha nem chegado nos 16 anos ainda.

Finalmente, um curso de inglês!

Eu cheguei no ponto de fechar as provas de inglês da escola e já conseguia entender os filmes, séries e músicas.  Eu queria avançar a minha fala! Querer falar foi o que me levou a procurar um curso de inglês.

Quando eu fui fazer teste de nível para entrar na Cultura Inglesa, o professor, que era britânico, ficou impressionado com minha redação, apesar de ter travado na fala. Então, eu já fui para um nível mais avançado de aulas.

Agora eu não só ouvia, lia e escrevia em inglês. Eu falava em voz alta o que eu pensava sobre os assuntos discutidos em aula. Aquele um ano foi essencial para eu realmente me sentir fluente no inglês, de maneira completa.

Passei menos de um ano lá, já que era uma escola cara e eu estava em trasição para a faculdade (vestibular e tudo). Na faculdade, entrei no Centro de Línguas e só fui evoluindo, mas já me considerava fluente.

Colhendo os frutos da fluência em inglês

E foi essa confiança na minha fluência que permitiu que eu participasse da AIESEC (vou falar sobre ela em algum post futuro) e entrevistar estrangeiros por Skype, além de, um ano mais tarde, enviar minha aplicação para o Ciência sem Fronteiras.

Um ano nos Estados Unidos pelo Ciência sem Fronteiras não só fez o meu inglês pular de fluente para ainda mais fluente, como me abriu oportunidades como trabalhar com tradução e produção de conteúdo bilíngue na Alemanha e ser aceita em um mestrado internacional na Europa com bolsa completa.

Então, a moral dessa história toda é:

Cara, você quer aprender inglês? Viva a língua, encontre uma convergência entre o que você gosta e o inglês e se empenhe a viver e respirar o inglês. Cometa erros! Corrija-os, fale em inglês, escreva.

Você vai perceber que a língua vai fluir naturalmente se você for paciente. Mas seja paciente, essas coisas não acontecem em 3 meses como dizem as propagandas de inglês por aí.

A fluência mesmo se adquire com alguns anos de dedicação. 🙂